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Novos paradigmas versus interesses econômicos: maior desafio da …


15/06/2012 – Prof Adolfo Plnio Pereira*

Estamos em meio à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável do Rio de Janeiro, ou, como foi amplamente divulgada em todo mundo, a Rio+20. O nome é em alusão ao encontro mundial ocorrido no mesmo Rio de Janeiro há 20 anos atrás, considerado por muitos como o mais importante encontro mundial em prol de um meio ambiente saudável, intitulada como a Rio92. Onde foram produzidos documentos de extrema importância e que norteiam a criação de leis, normas e procedimentos em todo globo até hoje, como é o caso da Agenda 21, Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, Convenção sobre Mudanças Climáticas, Convenção da Diversidade biológica entre outros.

Os noticiários afirmam que, em termos de avanços, a Rio+20 não deverá fazer sombra a Rio92. Mas, por que este encontro não deveria ter a mesma importância do anterior, já que 20 anos se passaram e o amadurecimento sobre o assunto, dentro da lógica, deveria ter evoluído ao longo do tempo?

Bem, não se pode ignorar que as chamadas grandes nações se desenvolveram e submeteram os povos mais pobres aos seus interesses exatamente por terem evoluído economicamente, ou seja, o rico mandou no pobre por vários anos. Neste momento da história, depois de um longo caminho, alguns destes países subservientes começam a experimentar o leve gosto deste mesmo vinho bebido e brindado pelos povos do norte por anos a fio. Assim está acontecendo com o Brasil, México, Rússia, Índia, China e alguns outros que, até bem pouco tempo, seria inimaginável ocuparem os postos de propulsores da economia mundial. Com as crises assolando os grandes é o consumo dos pequenos que mantém o sistema em pleno funcionamento. Portanto, é natural que nós brasileiros também queiramos experimentar um pouco desta vida econômica ativa, por termos sido privados de tal deleite por séculos. Merecido anseio pelo crescimento econômico nos permite apoiar, de forma coerente e consciente, projetos polêmicos como o da Usina Belo Monte.

Neste contexto, quem sempre foi rico, quer continuar rico, quem sempre foi pobre, quer chegar, pelo menos, à classe média. Para isso, temos que seguir a velha e funcional cartilha da “produção e consumo em massa”, tão propalada por uns e combatida por outros, mas, perfeita para manter tudo em ordem. Este sistema gerador de renda para os donos do negócio, trabalhadores, governos e sociedades, parece ser insubstituível na geração de prosperidade. Logicamente, suas fragilidades podem ser detectadas nas recentes crises dos EUA e de países europeus, pais e mães deste sistema que se mostrou infalível por muito tempo. Enquanto as grandes nações reinavam soberanas e olhavam de cima os povos “incompetentes” que as invejava, estava tudo na sua mais perfeita ordem.

Não podemos ignorar, contudo, que vivemos outros tempos. A informação veloz corre de vídeo em vídeo, de face em face, de e-mail em e-mail, de msn em msn, e, às vezes, de boca em boca. A discussão gira em torno da necessidade de mudanças, mas, que mudanças são estas que parecem nunca chegar? A preservação ambiental mostrou-se mais como algo incômodo com o qual se tem que conviver do que algo transformador de realidades e costumes.

Se formos pensar na valorização da vida em primeiro lugar, podemos nos dar o direito de fazer algumas perguntas: Por que os veículos elétricos ainda não fazem parte de nossas vidas? Por que a energia solar transformada em elétrica, ainda não está na minha casa e nem dos meus vizinhos? Por que as usinas eólicas e solares são vistas como empreendimentos futuristas e não fazem parte da vida cotidiana? Por que ainda é permitido que um produto qualquer seja fabricado e vendido, mesmo quando não se pode reciclá-lo por conter substâncias perigosas, ou quando não se pode desmontá-lo e reaproveitá-lo pela complexidade de sua produção? Por que países atraem fábricas multinacionais por oferecerem frágil fiscalização ambiental e trabalhista que facilitam a fabricação com custos baixos, e isso é visto como excelente estratégia empresarial enquanto, se parece mais com expressão de ignorância empresarial? Por que produtos fabricados em países contrários à vida ainda são comercializados livremente no mercado? Por que a reciclagem de produtos é um processo trabalhoso, demanda de criatividade, empenho de pessoas pobres é e visto mais como uma ação social do que empresarial? Por que conseguimos manter em órbita uma estação espacial ou investimos tempo para descobrir o Big Bang quando não conseguimos se quer cuidar de nossos lixões invadidos por seres humanos desprovidos de qualquer proteção social? Por que professores, doutores em suas áreas, imploram por financiamento para realizarem novos projetos em prol da modernização, enquanto jorram milhões nos bolsos de alguns jogadores de futebol e de algumas moças com corpos perfeitos nos programas de TV? Por que queremos descobrir água em Marte se não conseguimos cuidar da nossa própria água? Por que assistimos o despejar dos lixos eletrônicos em Gana ou a fome interminável no Zaire e continuamos paralisados em nossas ações? As respostas são complexas, mas se resumem a um velho e conhecido termo, o tal do “interesse econômico”. Em outras palavras, quem está ganhando quer continuar ganhando, independente das consequencias de suas ações. Outro dia vi a propaganda de um produto de certa multinacional famosa, acho que a mais famosa do mundo, e que dizia que os bons são maioria. Concordo e completo, acho que os tolos também.

A idéia de que o lucro é importante deve continuar existindo, pois em eles as empresas não sobrevivem, mas, não deve o lucro ser a única medida de eficiência organizacional. A hipervalorização da produtividade e do lucro tem raiz no taylorismo e fordismo (mais com menos e quanto mais melhor). Portanto, antes de perguntar ou mensurar qual foi o lucro de determinada organização, deveria se perguntar: “Quantas vidas foram preservadas? Quanto a sociedade lucrou com o resultado? Quanto a organização contribuiu para um mundo melhor? O que e como a vida foi valorizada no processo?”

Atualmente, se uma empresa apresenta um lucro menor do que o período anterior suas ações sofrem perdas na Bolsa de Valores. Isso as obriga buscar maiores resultados, pois esta é a expectativa dos acionistas. Agindo assim, boa parte das pessoas jurídicas acaba se apresentando como “pessoas” doentias e sem caráter.

Sabe-se que, sobre as bases do Sistema Capitalista foi construído um prédio tão grande que parece ser impossível de ser implodido sem que um desastre sem precedentes assole o planeta. Mas, talvez se fosse desmontado de andar em andar, com muito cuidado, mas, com firmeza de propósitos, poderia se conquistar resultados efetivos para todos. Na lista de ações deveriam constar:

- Não valorização excessiva de resultados financeiros e econômicos das organizações, sem que antes se verificasse a origem de seu crescimento e quais os ganhos e perdas da sociedade;

- Avaliação cautelosa de organizações que apresentem resultados financeiros inferiores ao de outros exercícios, pois, muitas vezes as perdas podem ocorrer por aumentos salariais, pagamento de impostos, redução de margem de lucro excessiva em produtos e serviços, investimentos em tecnologias verdes e outras ações benéficas para a sociedade que custam dinheiro à organização. Ter um resultado menor por ter investido em algo bom, deveria ser orgulhosamente divulgado pela organização. Neste caso, ter menores lucros diante de ações positivas deveria ser visto como louvável e invejável por todos integrantes do sistema;

- Hipervalorização de atividades em prol da vida, realizadas pelas organizações de uma forma geral;

- Radicalização das punições contra: trabalho escravo, baixos salários, doenças do trabalho, agressão ambiental, incompetência governamental diante da pobreza do povo, comércio de produtos com baixos preços por conta de processos de produção e comércio danosos à vida e situações assemelhadas;

- Apoio incondicional à geração de energia limpa;

- Apoio incondicional às novas tecnologias que gerem benefícios à sociedade, ganhos ambientais e sociais, independente dos interesses das grandes corporações que deveriam se adaptar ao sistema e não o sistema se adaptar a elas como ocorre na maioria das vezes;

- Substituição dos produtos que apenas satisfazem os “desejos criados” dos consumidores, por produtos com alta tecnologia que resolvam problemas cotidianos dos cidadãos, tendo a preservação ambiental intrínseca em seu processo de fabricação e, principalmente, após sua vida útil.

Enfim, talvez a Rio+20 seja um momento para enfrentarmos nossos medos e criarmos soluções definitivas. Talvez este seja o melhor momento para se quebrar paradigmas enraizados em nosso sistema de vida de forma madura, consciente e firme. Colocando a vida em primeiro lugar, sempre.

Fuente: http://www.incorporativa.com.br/mostraartigo.php?id=457

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